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Who de olho no mercado
global
POR LUIS BATISTA
GONÇALVES
10 de Fevereiro de 2005
A primeira agência de
talentos criativos que abriu em Portugal prepara-se para reinventar
o seu negócio. Cinco anos depois da sua entrada em funcionamento,
vencido o preconceito e ultrapassada a crise que quase a obrigou
a fechar as portas, a Who aposta na globalização e na micro-segmentação
para atingir novos mercados. Mas não abre mão de uma gestão controlada
ao pormenor que tem dado bons frutos
Artigo cedido pelo PortalExecutivo
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Nuno Fonseca/Who |
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»» A primeira
agência de talentos criativos que abriu em Portugal está de olho
no mercado global. Por enquanto, a Who
ainda só tem um cliente na Suíça e outro na Bélgica, mas com o
projecto de reposicionamento do negócio que a empresa está a preparar
para avançar ainda este ano, e que passa pela criação de mais
canais de distribuição além da Internet, esse número pode aumentar
consideravelmente. Pelo menos, é essa a expectativa de Ema Bárbara
Cerveira. Apesar de não querer adiantar pormenores "por uma razão
estratégica", a sócia-gerente da agência confirmou ao PortalExecutivo
que está em marcha um plano de reposicionamento da empresa que
pretende tirar partido das novas tecnologias para dinamizar a
forma de venda e distribuição dos produtos que esta promove.
Fundada em 1998, a Who agencia profissionais
de áreas tão diferentes como o design, o design gráfico, os novos
media, a ilustração, a fotografia e a moda, mas também tem nas
suas fileiras uma "cake stylist" e uma "flower designer".
Lá fora, este tipo de estruturas já existe
há mais de 50 anos, mas em Portugal só há cinco foi inaugurada
a primeira e ainda hoje a concorrência limita-se praticamente
a profissionais que já passaram por esta agência.
De início, apesar das dificuldades inerentes
ao pioneirismo que envolveu o projecto, as coisas começaram logo
a correr bem. "Facturámos imenso nos dois primeiros anos. Depois,
o mau bocado por que a Who passou coincidiu com a crise", refere.
Em 2002, confrontados com a quebra nos cofres,
os sócios fundadores da agência – Ema Bárbara Cerveira, Filipe
Gill e Elisabetta Canepa, a quem mais tarde se juntou Paula Balreira
– questionaram a continuidade do projecto. O seu encerramento
chegou mesmo a ser equacionado, mas a actual sócia-gerente decidiu
assumir o passivo e continuar com o negócio. E em boa hora o fez,
porque, em 2003, o volume de facturação "já foi bom" e, em 2004,
foi "ainda melhor". As contas ainda não estão encerradas, mas
Ema Bárbara Cerveira não tem qualquer dúvida. "O ano 2004 foi
fantástico para nós", confessa.
Facturação da Who em
2004 alcançou os 300 mil euros
Durante o ano que passou, a Who, que, incluindo a sua
sócia-gerente, emprega apenas três pessoas, todas mulheres, facturou
300 mil euros. "É um montante muito bom para a estrutura que é.
Mas vivemos com a sensação de que podemos fazer muito mais", revela
a sócia-gerente da empresa.
A rentabilização do negócio é feita através
da comissão de 30 por cento que a agência desconta dos honorários
que os profissionais que agencia cobram pelo seu trabalho. Em
situações específicas, que implicam uma actividade de gestão e
coordenação de uma encomenda que envolva talentos de várias áreas,
Ema Bárbara Cerveira exige o pagamento de uma comissão suplementar.
Mas para o crescimento registado em 2003
e 2004 muito contribuiu a gestão meticulosa que a fundadora da
empresa procura imprimir em todo o processo administrativo. Além
de uma estrutura leve que aposta na polivalência dos seus parcos
quadros, a funcionar num pequeno escritório no Bairro Alto, em
pleno centro de Lisboa, a Who – que recorre a serviços jurídicos
e de contabilidade em regime de outsourcing – tem adoptado uma
campanha de contenção de custos que se tem revelado decisiva.
As campanhas de SMS gratuitos que as operadoras móveis promovem
são aproveitadas ao máximo e os telefonemas estritamente necessários
são feitos nos horários económicos. "O e-mail é a nossa ferramenta
de contacto. Quase não vendemos de outra forma", afirma Ema Bárbara
Cerveira.
Impressora é acessório que não existe nos
escritórios da empresa. "Não imprimimos nada em papel. O nosso
catálogo de produtos é digital", sublinha. Mas não foi só a este
nível que a Internet lhes trouxe vantagem. Permitiu-lhes descobrir
profissionais a que dificilmente teriam acesso de outra maneira.
"Haviam criativos que viviam na serra ou lá metidos no seu canto
sem nunca dar azo à sua criatividade, que neste momento são profissionais
que estão no mercado", refere.
É também por aí que passa o seu processo
de internacionalização. Aquando do lançamento da Who, os seus
fundadores admitiam a hipótese de poderem vir a estabelecer parcerias
com agências de Londres e Barcelona. Hoje, a expansão do negócio
não passa tanto pelos locais. "A Internet revolucionou tanto o
mercado que há outras formas de abordar a questão. Há três anos,
isso fazia sentido. Hoje não", garante.
Portugal tem talento
criativo para dar e vender
Para entrar no mercado global, a Who vai procurar estabelecer
contactos com promotores estrangeiros que conhecem bem os segmentos
de mercado em que se movimentam. A ideia é levar esses "artbuyers"
a vender a criatividade agenciada, na sua maioria nacional. E
se há coisa que não nos falta são talentos! "É extraordinário!
Os próprios espanhóis dizem que Portugal tem melhores ilustradores.
A toda a hora, há ilustradores emergentes e nas outras áreas também",
afirma Ema Bárbara Cerveira.
Neste momento, a empresa tem cerca de meia
centena de profissionais da ilustração agenciados, fora os que
fazem parte da base de dados de inscritos que mantém de reserva.
A ilustração é mesmo a área de negócio mais rentável, seguida
de perto pelo design gráfico e pela fotografia. Essas são as principais
áreas procuradas pelos meios de comunicação social que constituem
o grosso dos seus clientes fidelizados, pelas agências de comunicação
e publicidade e pelos proprietários de salas de cinema, que lhes
solicitam o design gráfico de cartazes e postais promocionais.
Entre os clientes da empresa encontra-se
também um empresário têxtil que lhe pede a aplicação de ilustrações
em tecidos. A ideia é procurar, cada vez mais, novos segmentos
e desbravar mercados onde a ilustração possa ser aplicada.
Para poderem fazerem parte do catálogo da
agência, os interessados são submetidos a uma rigorosa análise.
Além do portfolio e das qualidades técnicas de que são dotados,
têm de apresentar uma carta de recomendação e passar o teste numa
entrevista "prolongadíssima" – "pode demorar uma tarde" – para
aferir da sua capacidade de "desbravar ideias", como Ema Bárbara
Cerveira lhe chama. E só os bons passam.
O número de agenciados é limitado. "Há que
saber gerir bem as expectativas de quem trabalha connosco. O mercado
é escasso. Temos a carteira demasiado preenchida", refere.
Criatividade portuguesa
está mais profissionalizada
Quase seis anos depois da sua criação, a Who está longe
de ser o que os seus fundadores idealizaram. "O fundamento está
lá, agora estrategicamente fomo-nos adaptando bastante", sublinha
a sócia-gerente da agência.
Mas se, entretanto, muita coisa mudou, as
dificuldades que enfrentaram por serem mulheres à frente de um
projecto novo sem referências no mercado "ainda" se fazem sentir.
Actualmente, já são uma referência no sector. Há profissionais
estrangeiros que as procuram para entrar no nosso circuito. Mas
"ainda hoje" a discriminação existe.
A confiança dos agentes do sector está, no
entanto, ganha. "Ainda temos alguns pontos fracos, mas sentimos
que estão a ser corrigidos e cada vez são menos", garante.
Ema Bárbara Cerveira reconhece que a falta
de conhecimentos profundos de gestão dificulta por vezes a condução
da empresa mas a profissionalização da criatividade a que o País
começa a assistir acaba por facilitar o processo. Hoje, os novos
criativos já têm muito pouco a ver com os autodidactas da velha
guarda. "Alguns já começam a ter marketing e isso também é estimulante
para nós", refere. Ou não fosse essa a sua formação de base. Formou-se
em Engenharia Publicitária, está a fazer uma pós-graduação em
Marketing Management e, antes de fundar a Who, passou pela McCann
Erickson, pelo Grupo Edipresse e pela Ideias em Peso, projectos
que lhe deram bases para desbravar outros caminhos.
Além do trabalho de intermediação da agência,
a Who tem procurado diversificar a sua actividade através da dinamização
de projectos transversais. Nos últimos dois anos, foi responsável
pelo BA Outlet, um evento de promoção da criatividade, da moda
e do talento nacional desenvolvido em colaboração com a Direcção
de Reabilitação Urbana da Câmara Municipal de Lisboa. Este ano,
está já prevista a terceira edição. Ocasionalmente, tem também
promovido vários Illustration Meeting Points, iniciativas em que
ilustradores da Who desenham ao vivo, sendo os seus traços projectados
para uma assistência. O próximo está marcado para segunda-feira,
14, dia de São Valentim, no restaurante/bar amo.te chiado, em
Lisboa. Edgar Raposo, Frederico Penteado e Alain Gonçalves são
os ilustradores de serviço, a partir das 13h00. pe
| A estrela
da companhia |
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Branca
Bastos/Who |
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Era uma vez uma menina pequenina que
gostava de moldar barro e plasticina. Um dia, apanhou a
mãe distraída e começou a fazer bonequinhos com massapão.
Tinha nove anos quando começou a enfeitar os bolos de aniversário
familiares com as suas criações. Três anos depois, começou
a rentabilizar o seu talento vendendo as suas confecções
à família e aos amigos.
Um belo dia, recebeu uma encomenda
da jornalista Laurinda Alves. Nada mais, nada menos, do
que decorar um bolo de aniversário para uma festa de 300
pessoas. O resultado foi de tal maneira elogiado que Laurinda
Alves a convidou a fazer uma produção para a capa da revista
"Pais & Filhos". A partir daí, as encomendas não pararam
de aumentar, ao ponto dos pais de Branca Bastos a terem
proibido de aceitar mais do que um bolo por semana para
não prejudicar os estudos.
Hoje, a bolacha ralada, o chantilly
e o massapão já não fazem parte dos materiais utilizados
por esta estudante de Ilustração e Animação, a mais mediática
"cake designer" do País e uma das estrelas da companhia
da Who. Desde que foi estudar para Bristol, vai a caminho
de um ano, Branca Bastos ainda só teve tempo para decorar
um bolo, uma tarefa que geralmente leva entre seis a 12
horas. "Agora dedico-me mais à ilustração em plasticina,
para além de que posso fazê-la aqui em Inglaterra, tirar
uma fotografia digital e enviá-la por e-mail", explicou
ao PortalExecutivo.
As suas últimas criações têm sido regularmente
publicadas no suplemento de negócios do "Jornal de Notícias".
Em vez de utilizar massa de amêndoa, natas batidas com açúcar
e coco ralado, como fazia antigamente, Branca Bastos trabalha
hoje com plasticina e fimo. É com eles que molda os seus
bonecos e pensa vir a fazer carreira. "A decoração de bolos
ajudou-me a perceber o que é que eu queria fazer profissionalmente.
Quero fazer modelagens de bonecos para filmes e séries.
Foi para isso que vim estudar para Bristol, que tem os estúdios
da Aardman e muitos outros. Para além de que este curso
é considerado um dos melhores da Europa", refere.
À medida que vai moldando as suas figuras,
Branca Bastos pensa já no desafio que a pode levar a concretizar
o seu sonho. A realização de uma curta-metragem de animação
de três minutos faz parte do trabalho de final de ano que
terá de apresentar dentro de quatro meses. "Os professores
incentivam-nos a trabalhar com os materiais com que nos
sentimos mais à vontade. Como é óbvio, vou utilizar a plasticina",
refere.
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