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ESPELHO DA DOR
por Sofia Dias
Vivemos tempos difíceis. Temos ainda muito presente nas nossas
memorias as imagens do 11 de Setembro, da guerra no Iraque e das catástrofes
naturais de dimensões apocalípticas um pouco por todo o
mundo. A crescente subida do preço do petróleo, do desemprego
assim como a consequente instabilidade social e política são
o cenário da dor que se espelha na nossa sociedade. As consequências
são claras: um profundo descrétido no futuro e uma vontade
deseperada de fugir desta realidade. Mas o ser humano é inegualável
em matérias de sobrevivência e por isso desenvolve mecanismos
de defensa muito poderosos que camuflam esta feia realidade. Esta arma
é simples e é de fácil acesso: trata-se do sonho.
Este meio é tão poderoso como diversificado e é através
dele que vamos ingressar no mundo das imagens, que é como quem
diz, das tendências que alimentam os desejos do imaginário
colectivo nos dias de hoje. Pois, digo hoje porque amanhã será
tudo bem diferente...
As viagens pelos imaginários são inúmeras e por isso
nunca poderei mencionar todas. Os universos que exercem atracção
sobre o indivíduo é que dictam as regras: livros, viagens,
pequenos fascíneos e prazeres. Tudo é permitido. Mas de
modo geral, podemos traçar três grandes categories de tendências
visuais, as quais são muito latas e abrangentes: o regresso á
infância, aos super-heroís, aos contos de fadas e aos jogos;
ou os bons velhos tempos como os da América do pós Guerra,
das esposas felizes e dos electrodomésticos de tons pastéis
ou ainda da sede de verdade, testemunhos pessoais e arte como forma de
expressão individual, criações de intenção
artística através dos meios tecnológicos digitais
(geração C).
As viagens às doces memórias de outros tempos em que "tudo
era tão bom" é claro, melhoradas pela nossa necessidade
de acreditar que a perfeição existe ou existiu algures,
são o cerne desta tendência. Esta é uma manobra controladora
do próprio indivíduo sobre si de forma a encontrar alguma
paz de espírito e algum sossego para a alma. Os sinais são
ténues mas tocam-nos no coração da mesma forma como
sorrimos quando vemos as fotos no nosso primeiro aniversário e
por isso são tão eficazes e quase cruéis. Veja-se
o anúncio de um fabricante de automóveis de luxo que ao
contrário do que a publicidade nos tem vindo a habituar, não
usa a imagem do ou da jovem sensual bem sucedido que goza de um enorme
prazer ao conduzir ao seu automóvel. Ao invés disso recorreram
ao uso da imagem do "Cocas", o simpático sapo dos Marretas
que vive alegremente no imaginário infanto-juvenil de muitos de
nós. É curioso como o carro passou a habitual mensagem emotiva,
mas desta vez sustentada por uma doce recordação de infância.
É o sentimento é de um reencontro com amigo de longa data,
no qual podemos confiar cegamente. Outras manifestações
desse regresso á infância são os jogos de consola
que como nunca antes as acções de promoção
passaram a ser direccionadas para o público adulto. Vejam-se ainda
o album e os telediscos da cantora Pop Gwen Stefani que são um
perfeito regresso aos sonhos de princesa das meninas da geração
80's que oscilam entre a Material-Girl, sonhos com toque fantástico
de princesas e piratas. Ou ainda a febre dos Super-Heróis que sugem
heroicamente pelas mãos dos realizadores cujo imaginário
infantil foi alimentado pela Marvel e finalmente puderam concretizar o
seus sonhos e os do público de os ver com vida.
Uma recente campanha da marca de vestuário Diesel insere os seus
productos num clima de cartazes publicitário dos anos 50. Gente
gira de corpos esbeltos envolvidos numa doce promessa de perfeição
são os argumentos de uma campanha que não deixou ninguém
indiferente. O mega sucesso da série televisiva desperate
house-wives é uma visão sarcástica do modelo
familiar que se tenta que seja perfeito, com esposas, casas, carro, guarda-roupas
e corpos perfeitos num universo Barby. Já noutro registo estilístico,
recordamos uma época romântica de inspiração
bucólica de liberdades e de quebra de tabus através das
influências do vestuário feminino inspirado nos anos setenta.
Ou ainda as tendêncies glamourosas de outros tempos que vão
desde a calça de cavaleiro evocando tempos prósperos da
aristocracia, sapatos de salto alto muito redondos ao estilo anos 50 ou
jaquetas muito ao estilo Coco Channel. Tudo boas recordação!
Veja-se na música: o Funk está de volta! Agora rejunescido
e re-trabalhado através da óptica de jovens artistas do
norte da Europa. O punk dos inícios dos anos 80 está resuscitado
e arrasou com o massificação da adesão da música
de dança das gerações mais novas. A crua realidade
e a Geração C: Assistimos a uma moda que já
vai sendo longa, de reality shows e anúncios de testemunhos pessoais.
Pela primeira vez as pessoas têm uma sede extrema de verdade, de
um maior contacto com a verdadeira pessoa atrás do ecrã
televisivo enriquecidos com testemunhos na primeira pessoa. É clara
a necessidade de troca de experiências com um satisfatório
nível realidade.
A Geração C é uma geração
nascida entre 1988 e 1993. C significa contents,
em português conteúdos e representa um grupo
de pessoas que com um pouco de criatividade ou talento dão corpo
a esta corrente. Este movimento surge pela oportunidade que a avalanche
de gadgets tecnológicos agora disponíveis no mercado a muito
bom preço, permite explorar a criatividade como nunca antes foi
possível. Agora os potenciais artistas podem dar asas á
sua imaginação usando para isso blogs, telemóveis,
mp3, máquinas de filmar e fotográficas digitais editando
e personalizando esses conteúdos para t-shirts, páginas
web ou DVDs pessoais. Marcas como a HP ou a Canon pela primeira
vez desafiam o consumidor a ter uma atitude activa, interagindo e experimentanto
os produtos de forma interventiva e criativa, convidando-os a participar
em acções, concursos e diversos. Claro que estas tendências
têm um lado perverso dando aos detendores da tecnologia a oportunidade
de entrarem no mercado dos profissionais da criatividade, tendência
esta que só terá solução com a crescente sensibilização
do público para imagens de verdadeira qualidade.
Parece que não falamos de ilustração mas falamos.
Falamos dela mas sobretudo de todo a máquina que sustenta e move
o mundo das imagens que não são mais do que as projecções
dos medos ou desejos colectivos da sociedade moderna, num contexto comercial,
social, político e artístico.
 
Apresento-vos o meu modesto contributo para a criação desta
gigantesca edificação do mundo das imagens.
Nesta Ilustração inspirei-me no meu imaginário infantil,
nos anos 80 em geral, tirando informação da gaveta das minhas
emoções. Usei recortes de formas que poderiam ter sido feitos
com uma colagem, muito ao estilo 80s, os tons são contidos
e dramáticos, combinando a doçura de um rosa tutu
com linhas absolutamente negras e acutilantes. Geometrização
vesus sensualidade de linhas definem o tom tóxico da imagem.
O conteúdo semântico é apenas ambiental, representativo
de um estado de alma que se assemelha a um fôlego contido com forte
batidas cardíacas. Medo e coragem em simultâneo. Material-Girl
versus mundo agressor.
Atrás de tempo, tempo vem. É um mundo redondo que sem lembranças
de passado e sonhos de futuro não tem identidade. E é assim
que se repete o ciclo, numa roda sem fim.
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